É com prazer que disponibilizamos para o grande público mais um número da Revista Eletrônica Rumos da História (v.1, n.10 jan/jul 2020).

A revista Rumos da História (www.rumosdahistoria.com) foi criada no ano de 2015, com um abordagem interdisciplinar.

A “NOVA” PRIMEIRA REPÚBLICA: CONSTRUINDO RELEITURAS A PARTIR DA HISTÓRIA REGIONAL

 

 

Leandro do Carmo Quintão[1]

Elezeare de Lima Assis[2]

José Candido Rifan Sueth[3]

 

APRESENTAÇÃO

 

 Recentemente a Primeira República tem sido alvo de autores que clamam por revisões historiográficas.[4] Talvez o principal resultado desses clamores, ou o primeiro, esteja significativamente marcado pela alteração da nomenclatura de República Velha para Primeira República.

Essa mudança traz em seu bojo mais do que uma aparência: ela desnuda os sentidos ideológicos forjados para legitimar simbolicamente o regime político edificado em meados dos anos 30, o Estado Novo varguista. Intelectuais buscavam, pelo campo da cultura, travar uma batalha e derrotar a República Liberal, que havia ficado para trás anos antes, pelas mãos armadas da Revolução de 30. Nesse sentido, descrer na institucionalidade liberal bem como em tudo que representava tornou-se pedra angular para os apologistas da ditadura recém-implantada. Portanto, a expressão República Velha se traduz num ato de poder erigida sob a dicotomia sucesso (Revolução de 30/ Estado Novo) x Fracasso (República Oligárquica), de modo a legitimar um regime instituído.[5]

 Essa relevante questão, contudo, não traduz todas as carências e demandas historiográficas. Tampouco nos dá todo o arsenal necessário para revisitar o período. Existem sem dúvida diversos caminhos, e um deles é o da história regional, da qual a história da Primeira República é indissociável.[6] Isto, pois por meio da investigação do que se passou nos estados torna-se possível comprovar ou questionar as grandes narrativas, geralmente estabelecidas como viés interpretativo de uma história nacional, fundamentada no protagonismo de algumas unidades federativas, de maior peso político e econômico. Em especial chamamos a atenção para São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul.

É bem verdade que a descoberta da História regional não se trata de uma novidade do século atual. O estudo publicado em 1990, intitulado República em migalhas: História local e regional já alertava sobre as múltiplas possibilidades que essa abordagem poderia oferecer aos diversos historiadores, como cotejar semelhanças ou lidar com diferenças e multiplicidades, dando ênfase aos casos particulares e marginalizados, além de identidades culturais específicas, entre outras possibilidades, tais como a testagem de grandes teorias estabelecidas.[7]Recentemente, José D’Assunção Barros trouxe à tona um estudo acerca da contribuição que a História Local e Regional oferece ao pesquisador que se debruça sobre essas abordagens. Ele elencou pelo menos quatro motivações para o historiador: abordar pequenas ou grandes regiões para constituir teorias mais amplas; testar ou reformular grandes teorias generalizadoras; a junção e articulação com outras histórias locais e regionais; e, por fim, preencher lacunas historiográficas e/ou atender necessidades da própria região.[8]

Tendo em vista a significativa contribuição que essa abordagem pode oferecer à historiografia da Primeira República, com o título A “Nova” Primeira República: construindo releituras a partir da História Regional, a edição atual da revista Rumos da História apresenta ao leitor estudiosos que se municiam dessa abordagem para constituir um (novo) olhar sobre a primeira fase republicana brasileira. 

 No primeiro artigo, José Candido Rifan Sueth estuda o confronto entre o progressismo e o conservadorismo no limiar do século XX, no Espírito Santo, ressaltando o papel da Maçonaria, da Igreja Católica e das ideias positivistas nesse embate.

No segundo, Cícero João da Costa Filho investiga agremiações literárias cearenses, defendendo que esses movimentos eram antes de tudo meio de ascensão social, de salvaguardar suas posições num período de reagrupamento dos estratos sociais em meio às mudanças do capital.

 Por sua vez, Elezeare Lima de Assis analisa a instrução primária pública no Espírito Santo, no formato de grupo escolar, objetivando discutir como ela se enquadrava no ideário elitista de modo a contribuir para forjar a modernidade e a cidadania naquele estado.

 Também tendo a instrução pública como objeto de estudo, Gerson Constança Duarte e Maurizete Pimentel Loureiro Duarte abordam de que modo o governo do estado do Espírito Santo a utilizou, ao longo da Primeira República, como principal agente transformador, em especial no que toca à questão da cidadania. 

 Jaqueline Porto Zulini investiga as charges das revistas Careta e O Malho de modo a comprovar que as avaliações negativas sobre a experiência representativa da Primeira república advinham de um referencial normativo democrático segundo o qual se criavam naturalmente expectativas sobre a atuação dos eleitores quando eles mesmos representavam uma categoria que se encontrava em construção.

 As discussões em torno dos rituais funerários em Vitória, no apagar das luzes do século XIX, são os objetos de estudo de Julia freire Perini, com destaque para o papel desempenhado pelos engenheiros no processo de laicização dos espaços públicos da dita cidade, o quais, para a autora, alteraram os modos de viver e de morrer naquele lugar, de modo a atender interesses de grupos específicos da sociedade capixaba oitocentista.

 Por fim, Uéber José de Oliveira discute o esforço realizado pelas elites capixabas da Primeira República para alçar a economia local a um melhor patamar de desenvolvimento econômico via construção de uma espécie de coalizões de possibilidades em torno de visões de futuro que deram o tom de objetivo nos primeiros governos capixabas na época republicana.

 Convidamos à leitura dos artigos anteriormente apresentados, esperando que os mesmos possam estimular novos estudos em História Regional e proporcionem relevantes reflexões para desvendar novos caminhos interpretativos sobre a Primeira República. Boa leitura!

Referências Bibliográficas

 

ALVES, Paulo. Coronelismo, mandonismo local e oligarquias: crítica aos modelos de interpretação da historia política da Primeira Republica. In: De Nipoti, Cláudio; Joanilho, André Luiz. (Org.). Leituras em História. Curitiba: Aos quatro ventos, 2003, v. 1, p. 175-191.

AMADO, Janaína. História e Região: reconhecendo e construindo espaços. In: SILVA, Marcos A. da. República em Migalhas. História Regional e Local. São Paulo: Editora Marco Zero, 1990.

BARROS, José D'Assunção. História, Espaço, Geografia; diálogos interdisciplinares. Petrópolis, RJ: Vozes, 2017.

GOMES, Angela de Castro; ABREU, Martha. A nova "velha" República: um pouco de história e historiografia. Tempo, Niterói, v.1 3, n. 26, p. 1-14, 2009.

LESSA, Renato. Prefácio. Uma redescoberta da Primeira República Brasileira. In: HOLLANDA, Cristina Buarque de. Modos de representação política: o experimento da Primeira República Brasileira. Belo Horizonte: Editora UFMG; Rio de Janeiro: IUPERJ, 2009.

LUCA, Tania Regina de. República Velha: temas, interpretações, abordagens. In: SILVA, Fernando Teixeira da; NAXARA, Márcia R. Capelari; CAMILOTTI, Virgina C. (orgs.). República, liberalismo e cidadania. Piracicaba: Editora Unimep, 2003.

RICCI, Paolo. Prefácio à 2ª edição. In: SILVA, Igor Vitorino da; QUINTÃO, Leandro do Carmo. O Espírito Santo da Primeira República. 2 ed. Serra: Editora Milfontes, 2019.

SILVA, Vera Alice Cardoso. Regionalismo: o enfoque metodológico e a concepção histórica. In: SILVA, Marcos A. da. República em Migalhas. História Regional e Local. São Paulo: Editora Marco Zero, 1990.

 

[1] Doutor em História pela UFES. Professor do Instituto Federal do Espírito Santo.

[2]Doutora em História pela UFES. Professora concursada da Rede Estadual de Ensino.

[3]Doutor em História pela UFES. Professor do Instituto Federal do Espírito Santo.

[4] GOMES, Angela de Castro; ABREU, Martha. A nova "velha" República: um pouco de história e historiografia. Tempo, Niterói, v.1 3, n. 26, p. 1-14, 2009. LESSA, Renato. Prefácio. Uma redescoberta da Primeira República Brasileira. In: HOLLANDA, Cristina Buarque de. Modos de representação política: o experimento da Primeira República Brasileira. Belo Horizonte: Editora UFMG; Rio de Janeiro: IUPERJ, 2009. LUCA, Tania Regina de. República Velha: temas, interpretações, abordagens. In: SILVA, Fernando Teixeira da; NAXARA, Márcia R. Capelari; CAMILOTTI, Virgina C. (orgs.). República, liberalismo e cidadania. Piracicaba: Editora Unimep, 2003. ALVES, Paulo. Coronelismo, mandonismo local e oligarquias: crítica aos modelos de interpretação da historia política da Primeira Republica. In: De Nipoti, Cláudio; Joanilho, André Luiz. (Org.). Leituras em História. Curitiba: Aos quatro ventos, 2003, v. 1, p. 175-191.

[5]GOMES, Angela de Castro; ABREU, Martha. A nova "velha" República: um pouco de história e historiografia. Tempo, Niterói, v.1 3, n. 26, p. 1-14, 2009, p.3.

[6]RICCI, Paolo. Prefácio à 2ª edição. In: SILVA, Igor Vitorino da; QUINTÃO, Leandro do Carmo. O Espírito Santo da Primeira República. 2 ed. Serra: Editora Milfontes, 2019, p.8.

[7]AMADO, Janaína. História e Região: reconhecendo e construindo espaços. In: SILVA, Marcos A. da. República em Migalhas. História Regional e Local. São Paulo: Editora Marco Zero, 1990, p.13.SILVA, Vera Alice Cardoso. Regionalismo: o enfoque metodológico e a concepção histórica. In: SILVA, Marcos A. da. República em Migalhas. História Regional e Local. São Paulo: Editora Marco Zero, 1990, p.47.

[8]BARROS, José D'Assunção. História, Espaço, Geografia; diálogos interdisciplinares. Petrópolis, RJ: Vozes, 2017, p.175ss.

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